Ferinha

Hoje essa ferinha completou um mês e meio de internação, entre vaivéns da UTI pro quarto, do quarto pra UTI. Três ciclos de antibióticos punk rock, morfina, picadas na barriga, bombinhas, 489637 comprimidos diários e toda uma gama de procedimentos que eu nem imaginava que existissem. Tudo, é claro, temperado com pitadas de drama, intriga e reviravoltas dignos de novela mexicana, apesar de ela ser espanhola — o sotaque pelo menos é garantido.

Nesse meio-tempo, ela chegou a ter uma breve alta: ficou dois dias fora do hospital e logo voltou, sendo o suficiente pra comemorar seu aniversário de 95 anos com bolo e salgadinhos, sob a luz natural do sol e na companhia da família. Safada! Ela é a mulher mais forte e batalhadora que eu conheço. Sua vida daria um livro.

Pra mim não tem essa de “nada acontece por acaso”, mas às vezes acabo me perguntando qual o sentido disso tudo, de tantas internações nestes últimos anos. Conforme vou reconhecendo em mim uma fonte de cuidados que parece ser infinita, mesmo quando eu acho que na verdade eu também devia estar sendo cuidada, percebo que, sem querer, minha avó continua me educando. Esse acaso é bonito e importante.

E ela dorme ao meu lado, enquanto eu escrevo este singelo textinho pra dizer que aceitamos todos os pensamentos positivos de quem quiser nos enviar. E vira e mexe ela acorda no meio da noite e briga comigo pra eu ir deitar, exatamente como foi durante muitos anos das nossas vidas. Certas coisas nunca mudam! <3

vó

About Laura Moreira

bestia cupidissima rerum novarum

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